Francisca da Silva de Oliveira

 



Chica da Silva

Chica da Silva nasceu por volta de 1732 na região do Arraial do Tijuco, atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais. Filha de uma mulher negra escravizada e de um homem branco, sua origem refletia as tensões raciais e sociais do Brasil colonial. 

Desde o nascimento, foi marcada por uma dupla condição: a de ser mulher e negra em uma sociedade patriarcal e escravocrata. Ainda criança, foi vendida como escrava para um contratador de diamantes, onde iniciou sua trajetória servindo em funções domésticas. 

Seu destino começou a mudar quando foi adquirida por João Fernandes de Oliveira, um rico contratador da Coroa portuguesa. Entre eles não se formou apenas uma relação afetiva, mas também uma aliança social e política que desafiaria a lógica da época. João Fernandes concedeu-lhe a alforria e, ao contrário do que era comum, assumiu publicamente a convivência com Chica, com quem teve treze filhos. A partir desse momento, Chica da Silva passou a circular com certa liberdade na sociedade local, frequentando festas, construindo imóveis e sendo retratada com trajes luxuosos. 

Seu estilo de vida gerava fascínio e escândalo: uma mulher negra, ex-escravizada, vivendo como “senhora”. Mas seu poder também tinha limites. Apesar dos privilégios conquistados, enfrentava olhares de desprezo, comentários venenosos e resistências de uma elite que a via como usurpadora. A sociedade que a observava com curiosidade nunca lhe perdoou sua autonomia. Chica sabia disso — e soube usar com inteligência as brechas que a estrutura permitia.

 Chica da Silva morreu em 1796. Com sua morte, começaram os esforços para reduzi-la ao folclore, à lenda, à mulher “esperta” que usou a sedução para ascender. Mas o tempo — e a história — revelaram que ela era muito mais: era símbolo de estratégia, de afirmação, e de resistência em um mundo que negava humanidade às mulheres negras. 

No espelho da história, Chica segue nos olhando, desafiando quem se atreve a esquecer seu nome.