Chica da Silva
Chica da Silva nasceu por volta de 1732 na região do Arraial do Tijuco, atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais. Filha de uma mulher negra escravizada e de um homem branco, sua origem refletia as tensões raciais e sociais do Brasil colonial.
Desde o nascimento, foi marcada por uma dupla condição: a de ser mulher e negra em uma sociedade patriarcal e escravocrata. Ainda criança, foi vendida como escrava para um contratador de diamantes, onde iniciou sua trajetória servindo em funções domésticas.
Seu destino começou a mudar quando foi adquirida por João Fernandes de Oliveira, um rico contratador da Coroa portuguesa. Entre eles não se formou apenas uma relação afetiva, mas também uma aliança social e política que desafiaria a lógica da época. João Fernandes concedeu-lhe a alforria e, ao contrário do que era comum, assumiu publicamente a convivência com Chica, com quem teve treze filhos. A partir desse momento, Chica da Silva passou a circular com certa liberdade na sociedade local, frequentando festas, construindo imóveis e sendo retratada com trajes luxuosos.
Seu estilo de vida gerava fascínio e escândalo: uma mulher negra, ex-escravizada, vivendo como “senhora”. Mas seu poder também tinha limites. Apesar dos privilégios conquistados, enfrentava olhares de desprezo, comentários venenosos e resistências de uma elite que a via como usurpadora. A sociedade que a observava com curiosidade nunca lhe perdoou sua autonomia. Chica sabia disso — e soube usar com inteligência as brechas que a estrutura permitia.
Chica da Silva morreu em 1796. Com sua morte, começaram os esforços para reduzi-la ao folclore, à lenda, à mulher “esperta” que usou a sedução para ascender. Mas o tempo — e a história — revelaram que ela era muito mais: era símbolo de estratégia, de afirmação, e de resistência em um mundo que negava humanidade às mulheres negras.
No espelho da história, Chica segue nos olhando, desafiando quem se atreve a esquecer seu nome.