Manoel Raimundo Querino (1851–1923)
Biografia
Manoel Querino nasceu em 1851, na cidade de Santo Amaro da Purificação, Bahia, Brasil. Filho de pais negros, perdeu os pais ainda na infância e foi criado em um orfanato. Desde cedo enfrentou as duras realidades do racismo e da exclusão social, mas encontrou na arte e na educação caminhos para se afirmar como sujeito pensante e atuante em sua época.
Durante a juventude, aprendeu o ofício de pintor decorador e, com o tempo, se tornou também desenhista, escultor e professor. Sua trajetória autodidata foi marcada por uma curiosidade insaciável e uma profunda ligação com a cultura do povo negro baiano. Casou-se e teve filhos, equilibrando sua vida familiar com a dedicação à produção intelectual e artística.
Querino era um homem de múltiplos talentos: além de artista, foi um pesquisador minucioso das tradições afro-brasileiras. Interessava-se por culinária, música, religião, artesanato e arquitetura — sempre com o olhar voltado para o protagonismo do povo negro. Frequentava rodas de conversa, mercados e terreiros, onde ouvia e registrava histórias, saberes e práticas que as elites desprezavam. Na sua casa, acolhia aprendizes, discutia ideias e mantinha uma pequena biblioteca.
Era um intelectual orgânico, comprometido com o povo e avesso ao elitismo acadêmico. Mesmo enfrentando preconceito por sua cor e origem humilde, foi membro de instituições culturais e atuou como vereador em Salvador, lutando por inclusão e dignidade.
Faleceu em 1923, mas deixou um legado inestimável: foi o primeiro intelectual negro a escrever, com método e rigor, sobre a contribuição africana na formação da cultura brasileira. Manoel Querino é lembrado como um pioneiro da etnografia afro-brasileira e como a memória viva de um Brasil negro que insiste em existir e resistir.