Manoel Raimundo Querino (1851–1923)
História
Manoel Raymundo Querino foi um dos primeiros intelectuais negros do Brasil a se opor sistematicamente à narrativa racista da história oficial. Nascido em 1851 e atuando nas primeiras décadas da República, sua obra se destacou por valorizar a cultura afro-brasileira em um período de forte eurocentrismo e exclusão racial.
Querino desenvolveu uma abordagem pioneira: ao invés de repetir os discursos acadêmicos da elite, saiu às ruas, feiras e terreiros para conversar com o povo. Escreveu sobre a arte dos artesãos negros, sobre as comidas típicas da Bahia, sobre os rituais religiosos de matriz africana e sobre a sabedoria do cotidiano popular. Para ele, o povo negro era construtor da nação — não um detalhe do passado.
Seus livros como *A Bahia de Outrora* e *O Colono Preto como Factor da Civilização Brasileira* são marcos na historiografia nacional. Neles, Manoel Querino refuta ideias de inferioridade racial e mostra, com documentos e relatos, como os negros foram fundamentais na arquitetura, na agricultura, na música e nas tradições culturais brasileiras.
Atuou politicamente como vereador em Salvador, levando suas ideias para dentro das instituições. Mesmo assim, sua trajetória foi silenciada durante décadas. Somente no final do século XX sua importância começou a ser resgatada por pesquisadores e movimentos sociais comprometidos com a valorização da história negra no Brasil.
Manoel Querino representa a força intelectual negra que, mesmo sem apoio das universidades ou do poder, construiu uma narrativa alternativa e verdadeira sobre a formação do país. Hoje, seu nome é celebrado como símbolo de resistência cultural, rigor histórico e afirmação da identidade afro-brasileira.