Notas Didáticas Manoel Querino

 



Manoel Raimundo Querino (1851–1923)

🎓 Notas Didáticas –

 Memória Preta Análise verso a verso 

🎤 “Do povo negro nasceu a arte, da feira, do som, do ofício e da cor / Manoel Querino, homem negro, escreveu o que ninguém ousou por amor” 

🔍 Interpretación: Abertura que conecta arte, trabalho e identidade negra como fontes de saber. Querino é apresentado como cronista afetivo e corajoso da cultura popular afro-brasileira. 

 🎶 “Memória preta, escrita viva, voz que resiste, luz que motiva / Do chão da Bahia à caneta erguida, Querino é raiz, palavra erguida” 

🔍 Interpretación: O refrão destaca a escrita como forma de resistência e reexistência. A caneta é símbolo de poder intelectual negro, e Querino como raiz histórica. 

 📚 “Com caderno no mercado, registrou o povo esquecido / Homem negro, historiador, fez do silêncio um grito contido” 

🔍 Interpretación: Refere-se à sua prática etnográfica real — observava trabalhadores e artesãos e registrava suas histórias. O grito contido é o saber sufocado por séculos.

 ✨ “Entre terreiros e escolas, levantou as histórias reais / Na Bahia de outrora, cantou os ancestrais, com coragem e gestos imortais” 

🔍 Interpretación: Une espiritualidade e pesquisa. Querino atuava nos dois mundos — acadêmico e popular — para honrar os que vieram antes. 

 🔥 “Foi pintor, foi vereador, etnógrafo do Brasil profundo / Homem negro Manoel Querino, fez do saber um novo mundo” 

🔍 Interpretación: Resume sua multiplicidade: político, artista, intelectual. Reafirma seu papel como fundador de uma nova visão sobre o Brasil — centrada na negritude. 

 🎶 “Memória preta, escrita viva, voz que resiste, luz que motiva / Manoel Querino é centelha acesa, na história que o Brasil precisa”

 🔍 Interpretación: Encerramento que coloca Querino como figura fundacional e necessária para um Brasil que se quer mais justo e consciente de sua diversidade. 

 📚 Conexões com a BNCC

 📘 História / Ensino Fundamental (Anos Finais)

 EF09HI06 – Reconhecer autores e saberes afro-brasileiros na construção da história. → Querino é figura central para reposicionar o protagonismo negro na historiografia nacional.

 EF09HI08 – Analisar o papel de intelectuais negros na formação do pensamento social brasileiro. → A canção permite explorar sua contribuição para a etnografia, arte e política.

 📘 Língua Portuguesa 

EF69LP09 – Analisar sentidos em textos poéticos que tratam da memória coletiva e da identidade. → A letra usa linguagem simbólica e afetiva para reconstruir uma figura invisibilizada. 

 ✏️ Sugestões Pedagógicas

 Atividade 1: Criação de biografias ilustradas de personagens esquecidos da comunidade.

 Atividade 2: Oficina de escrita “Memória Preta” – produção de relatos sobre raízes familiares. 

 Atividade 3: Leitura comparativa entre textos de Querino e livros didáticos atuais. 

 Atividade 4: Exposição visual com o tema: “A caneta é nossa lança”.

 Atividade 5: Sarau poético com releituras da música como manifesto.




Plano de Aula: Manoel Querino e a Construção da Memória Afro-Brasileira

1.0 Apresentação e Justificativa

Este plano de aula oferece uma abordagem pedagógica para o Ensino Médio focada no resgate da vida e obra de Manoel Querino, um intelectual negro pioneiro e fundamental para a compreensão da história do Brasil. Em um contexto educacional que busca, em conformidade com as diretrizes curriculares, valorizar a história e a cultura afro-brasileira, estudar a trajetória de Querino é um ato de justiça histórica e uma ferramenta poderosa para a formação de uma consciência crítica nos estudantes. Sua biografia e produção intelectual servem como um contraponto essencial às narrativas eurocêntricas que por muito tempo dominaram o ensino de História.

A relevância de Manoel Querino pode ser sintetizada em três eixos centrais que desafiam a historiografia tradicional:

  • Pioneirismo Intelectual: Foi o primeiro intelectual negro a registrar com método e rigor a contribuição africana na formação da cultura brasileira, validando saberes e práticas até então desprezados pela elite acadêmica.
  • Metodologia Etnográfica: Sua pesquisa não se limitava aos gabinetes. Querino ia a campo — nas ruas, feiras e terreiros — para documentar a cultura popular diretamente de suas fontes vivas. Essa abordagem etnográfica e popular se opunha radicalmente ao elitismo intelectual de sua época.
  • Resistência Política e Cultural: Como vereador e escritor, combateu ativamente as ideias de inferioridade racial, utilizando seu conhecimento para afirmar o povo negro como construtor da nação e agente fundamental da civilização brasileira.

A seguir, apresentamos os objetivos de aprendizagem que guiarão esta jornada de descoberta e reflexão sobre a obra e o legado de Manoel Querino.

2.0 Objetivos de Aprendizagem

Para garantir uma aprendizagem integral e significativa, estruturamos os objetivos desta aula para desenvolver competências conceituais (o saber), procedimentais (o saber fazer) e atitudinais (o saber ser/conviver).

Conceituais

  1. Compreender quem foi Manoel Querino e sua importância como intelectual negro pioneiro na valorização da cultura afro-brasileira.
  2. Identificar as principais contribuições de Querino para a historiografia brasileira, como a documentação da culinária, música e religião de matriz africana.
  3. Reconhecer as estratégias de resistência intelectual de Querino contra o racismo e o silenciamento histórico.

Procedimentais

  1. Analisar criticamente a letra da canção "Memória Preta", relacionando seus versos à biografia e ao legado de Manoel Querino.
  2. Exercitar a capacidade de debate ao conectar a luta de Querino no passado com questões contemporâneas sobre racismo e representatividade.

Atitudinais

  1. Valorizar a contribuição do povo negro na formação da identidade e cultura nacional.
  2. Desenvolver uma postura crítica em relação às narrativas históricas oficiais e ao silenciamento de personalidades negras.

Para alcançar estes objetivos, selecionamos um conjunto de materiais didáticos que promovem uma abordagem dinâmica e multimídia.

3.0 Recursos e Materiais Didáticos

Os materiais para a execução desta aula foram selecionados para facilitar uma abordagem dinâmica, multimídia e centrada no protagonismo dos estudantes, combinando fontes textuais, artísticas e audiovisuais.

  • Cópia da biografia e do resumo histórico de Manoel Querino.
  • Cópia da letra da canção "Memória Preta".
  • Recurso de áudio ou vídeo para tocar a canção "Memória Preta".
  • Quadro branco ou lousa para anotações e registro das discussões.
  • Materiais para a atividade de avaliação (cartolina, canetas coloridas, etc.).

Com estes recursos em mãos, podemos seguir para a sequência de atividades propostas para a aula.

4.0 Desenvolvimento da Aula (Duração Sugerida: 90 minutos)

A aula foi estruturada em quatro etapas progressivas, que partem da sensibilização artística, avançam para a análise histórica e culminam em um debate crítico, visando o engajamento contínuo dos estudantes e a construção coletiva do conhecimento.

4.1 Etapa 1: Sensibilização e Contextualização (15 minutos)

O professor iniciará a aula tocando a canção "Memória Preta" para a turma. Durante a audição, os alunos devem ser orientados a anotar livremente as primeiras impressões, palavras-chave, sentimentos e imagens que a música desperta. Em seguida, o professor mediará uma breve discussão inicial para ativar o conhecimento prévio e a curiosidade da turma, utilizando as seguintes perguntas como ponto de partida:

  • Quem vocês acham que foi o "homem negro Manoel Querino" mencionado na letra?
  • O que o refrão "Memória preta, escrita viva" sugere?
  • Qual é o tema central da música?

4.2 Etapa 2: Análise Aprofundada da Canção (20 minutos)

Nesta etapa, o professor distribuirá a letra da canção "Memória Preta" e dividirá a turma em pequenos grupos. Cada grupo receberá a tarefa de analisar trechos específicos da música, guiados por questões que estimulem a inferência e a interpretação, conectando a poesia à história.

Trecho da Canção

Questão para Análise

"Com caderno no mercado / registrou o povo esquecido"

O que este verso nos diz sobre o método de trabalho de Querino e quem ele valorizava em suas pesquisas?

"Entre terreiros e escolas / levantou as histórias reais"

Como este trecho mostra a capacidade de Querino de valorizar diferentes formas de saber, tanto o popular/religioso quanto o formal?

"Homem negro Manoel Querino / fez do saber um novo mundo"

De que maneira o conhecimento pode ser uma ferramenta de transformação política e de luta contra o preconceito?

"Foi pintor, foi vereador / etnógrafo do Brasil profundo"

Como as diferentes profissões de Querino podem ter contribuído para sua visão ampla sobre a cultura e a sociedade brasileira?

Ao final, os grupos deverão compartilhar suas conclusões com a turma, construindo uma compreensão coletiva da mensagem da canção.

4.3 Etapa 3: Quem foi Manoel Querino? Aprofundamento Histórico (25 minutos)

Com base na curiosidade despertada pela música, o professor distribuirá os textos "Biografia" e "História" de Manoel Querino. A leitura poderá ser feita individualmente ou em voz alta, de forma compartilhada. Após a leitura, o professor mediará uma discussão que conecte as informações biográficas com a análise da canção, consolidando o entendimento sobre a importância de Querino. Os seguintes pontos podem guiar o debate:

  1. Múltiplos Talentos: Como suas diversas profissões (pintor, vereador, pesquisador) fortaleceram sua luta e ampliaram sua capacidade de registrar a cultura afro-brasileira?
  2. O Método: Por que sua abordagem de pesquisar "nas ruas, feiras e terreiros" era revolucionária e se contrapunha ao conhecimento produzido pelas elites da época?
  3. O Legado: Por que uma obra tão importante foi "silenciada durante décadas"? Qual a importância de resgatar a história de Manoel Querino hoje, para a nossa sociedade?

4.4 Etapa 4: Debate - Conectando Passado e Presente (20 minutos)

Para finalizar, o professor organizará um debate com a turma, dividindo a discussão em eixos temáticos que conectem a trajetória de Manoel Querino às questões contemporâneas.

  • O Silenciamento de Intelectuais Negros Partindo da constatação de que a obra de Querino foi "silenciada durante décadas", esta discussão investiga por que a invisibilização de pensadores negros persiste e como podemos combatê-la. Por que figuras como Manoel Querino não são amplamente conhecidas na história oficial do Brasil? Que outros intelectuais negros vocês conhecem ou gostariam de conhecer?
  • A "Escrita Viva" como Resistência Inspirados pelo refrão da canção, que celebra a "memória preta, escrita viva" de Querino, vamos debater o poder da arte como ferramenta de resistência e afirmação de identidades marginalizadas hoje. De que forma a arte (música, poesia, escrita, grafite) pode ser usada como uma ferramenta para combater o racismo e contar histórias que foram apagadas ou silenciadas?
  • Valorização da Cultura Local Manoel Querino construiu seu legado registrando "o povo esquecido" em feiras, mercados e terreiros. Seguindo seu método, esta conversa nos convida a olhar para nosso entorno e identificar os saberes e as pessoas que constroem a cultura da nossa própria comunidade. Que pessoas, práticas ou saberes da sua comunidade (bairro, cidade) merecem ser registrados e valorizados como parte da nossa cultura?

As discussões desta etapa servirão de base para a atividade de avaliação, que permitirá aos alunos sintetizar e expressar o conhecimento construído.

5.0 Atividade de Avaliação e Sistematização

A avaliação desta aula busca verificar a compreensão dos objetivos de forma criativa e prática, incentivando os alunos a se tornarem agentes na produção e divulgação do conhecimento, assim como fez Manoel Querino. O professor poderá escolher entre as duas opções a seguir:

  1. Criação de Cartazes "Memória e Resistência" Em grupos, os alunos deverão criar cartazes para uma exposição escolar sobre Manoel Querino e a resistência negra. Cada cartaz deve destacar uma frase marcante da canção (ex: "Fez do saber um novo mundo") ou um fato relevante de sua biografia, acompanhado de uma ilustração e de um texto curto explicando o significado daquela ideia para a luta antirracista nos dias de hoje.
  2. Biografia de um "Herói" ou "Heroína" da Comunidade Individualmente ou em duplas, os alunos deverão escrever uma pequena biografia de uma pessoa de sua comunidade (um familiar, vizinho, artista local, mestre de capoeira, etc.) que tenha um impacto cultural importante, mas que seja pouco reconhecida. A proposta é seguir o exemplo metodológico de Querino: ir a campo para ouvir e registrar as histórias do "povo esquecido", valorizando e celebrando os saberes que constroem a identidade cultural local.

Ambas as atividades estimulam a pesquisa, a síntese e a valorização da memória como ferramenta de transformação social.

6.0 Sugestões para Aprofundamento

Para professores e alunos que desejarem continuar a exploração do tema para além desta aula, sugerimos os seguintes caminhos, que expandem o conhecimento sobre Manoel Querino e a intelectualidade negra no Brasil.

  • Pesquisar e apresentar seminários sobre as principais obras de Manoel Querino, como A Bahia de Outrora e O Colono Preto como Factor da Civilização Brasileira, analisando como ele representou o povo negro em sua escrita.
  • Organizar um debate mais aprofundado sobre os desafios enfrentados por intelectuais negros no Brasil nos séculos XIX e XX, comparando com a realidade enfrentada por pesquisadores e artistas negros na atualidade.
  • Convidar um(a) pesquisador(a), ativista do movimento negro ou mestre de saberes da comunidade local para uma conversa com a turma, conectando o legado de Querino com as lutas e produções contemporâneas pela memória afro-brasileira na região.